A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou, nesta semana, uma nova frente conjunta com as forças de segurança estaduais para tentar conter o avanço dos furtos de cabos na cidade, prática criminosa que vem aumentando cada vez mais. A medida busca enfrentar um problema que afeta diretamente a mobilidade urbana e a iluminação pública, gerando prejuízos milionários e transtornos diários à população. O anúncio foi feito em um contexto de crescente preocupação com a segurança patrimonial e a eficiência dos serviços públicos.

A iniciativa prevê a criação de um núcleo permanente de combate a esse tipo de crime, com atuação integrada entre órgãos municipais e estaduais. A ideia é cruzar informações de diferentes órgãos para identificar os pontos mais atingidos e os períodos em que os crimes ocorrem com maior frequência. Além de tentar impedir a retirada dos cabos, a força-tarefa pretende atuar sobre quem compra, guarda ou revende o material, ampliando a fiscalização sobre estabelecimentos suspeitos de receber produtos furtados.

Com essa abordagem, a prefeitura espera não apenas reprimir os furtos, mas também desmantelar a cadeia de receptação que sustenta a atividade criminosa. A estratégia reconhece que o combate efetivo exige ir além do flagrante, mirando os elos econômicos que tornam o crime lucrativo. A integração de dados permitirá um mapeamento mais preciso das áreas vulneráveis e dos horários de maior incidência, otimizando o emprego dos recursos de fiscalização.

Impacto dos furtos na mobilidade urbana

Um exemplo do impacto desse problema foi apresentado pela CET-Rio. Para se ter uma ideia, o cruzamento da Rua Valdir Amaral com a Boulevard 28 de Setembro, na Grande Tijuca, acumulou 87 ocorrências no mesmo semáforo ao longo de 2026. Na prática, o equipamento foi alvo de furto, em média, a cada três dias, causando interrupções recorrentes no funcionamento do sinal.

Esses números revelam a dimensão do desafio enfrentado pelos órgãos de trânsito. A repetição dos furtos em um único ponto demonstra a vulnerabilidade da infraestrutura e a ousadia dos criminosos, que agem mesmo em áreas movimentadas. As falhas constantes nos semáforos aumentam o risco de acidentes e comprometem a fluidez do tráfego, afetando milhares de motoristas e pedestres diariamente.

Além dos transtornos imediatos, a reposição frequente dos cabos gera custos elevados e desvia recursos que poderiam ser aplicados em outras melhorias. A situação na Grande Tijuca ilustra um padrão que se repete em diversos bairros, evidenciando a necessidade de uma resposta coordenada e permanente. A nova força-tarefa busca justamente quebrar esse ciclo de furto e reposição, atacando as causas do problema.

Prejuízo milionário e substituição de cabos

O município estima que tenha perdido mais de R$ 69 milhões entre 2021 e 2026 com o desaparecimento de cabos pertencentes à CET-Rio e à RioLuz. Esse montante reflete não apenas o valor do material subtraído, mas também os custos de mão de obra e logística para a reinstalação. A cifra evidencia a gravidade financeira do delito, que onera os cofres públicos e compromete investimentos em outras áreas essenciais.

Para mitigar as perdas, a prefeitura iniciou a substituição do cabeamento por uma nova estrutura mais resistente. Na primeira etapa da substituição, nove dos 54 cruzamentos previstos já receberam a nova estrutura laranja. Ao todo, serão 14 quilômetros de cabeamento, com conclusão estimada para as próximas seis semanas. A nova tecnologia visa dificultar a ação dos criminosos, tornando o material menos atrativo para o furto e a receptação.

A troca dos cabos representa um investimento significativo, mas é vista como medida necessária para reduzir a recorrência dos delitos. A cor laranja, além de facilitar a identificação visual, pode atuar como um elemento dissuasório, sinalizando que o material pertence ao poder público. A expectativa é que a nova infraestrutura reduza drasticamente as interrupções nos serviços de trânsito e iluminação.

Fiscalização de ferros-velhos em foco

A repressão à receptação também já começou. Dois ferros-velhos localizados em Sampaio, na Zona Norte, foram alvo das primeiras ações anunciadas pela prefeitura. Um deles foi desapropriado, enquanto o outro ocupava uma área pública que deverá retornar ao município. Os dois estabelecimentos tiveram os respectivos alvarás cassados.

Essas medidas demonstram a disposição do poder público em agir com rigor contra os pontos de escoamento do material furtado. A desapropriação e a cassação de alvarás são instrumentos legais que inviabilizam a continuidade das atividades ilícitas. A ação em Sampaio serve como um alerta para outros comerciantes que possam estar envolvidos na receptação de cabos.

A escolha de Sampaio como ponto de partida não foi aleatória, uma vez que a região concentra estabelecimentos do gênero. A prefeitura sinaliza que a fiscalização será ampliada, abrangendo outras áreas da cidade. O foco na receptação é estratégico, pois ataca a demanda que impulsiona os furtos, tornando o crime menos rentável para toda a cadeia.

Próximos passos da força-tarefa

De acordo com o prefeito Cavaliere, há outras dezenas de ferros-velhos que poderão entrar na mira das fiscalizações e já estão mapeados. Os locais estão sujeitos a medidas como interdição e apreensão de materiais. “A gente vai avançar para todos os ferros-velhos ilegais, que são as áreas que dão a sustentação para esse tipo de crime acontecer em escala”, disse o prefeito.

O mapeamento prévio indica que a prefeitura possui informações detalhadas sobre os estabelecimentos suspeitos, o que permitirá uma atuação mais eficiente. A interdição e a apreensão de materiais são medidas administrativas que podem ser aplicadas de forma célere, sem depender exclusivamente de processos judiciais longos. A declaração do prefeito reforça o compromisso de ampliar o cerco aos receptadores.

A continuidade das ações dependerá da integração entre os órgãos municipais e estaduais, bem como do suporte da população por meio de denúncias. A força-tarefa permanente representa uma mudança de postura, deixando de tratar o furto de cabos como um problema pontual para enfrentá-lo de forma sistemática. A expectativa é que, com o tempo, a redução da receptação leve à diminuição dos furtos e à recuperação da confiança nos serviços públicos.

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