Um relatório da Polícia Federal (PF) revela que o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, apontou ministros do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como favoráveis à venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). A informação consta em investigação que tem como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. O diálogo foi travado em agosto de 2025 e anexado a um processo sigiloso no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça.

Diálogo expõe bastidores da operação

O documento obtido pela Polícia Federal e anexado ao inquérito sigiloso registra uma conversa entre Daniel Vorcaro e um jornalista no dia 19 de agosto de 2025.

Na troca de mensagens, o repórter questiona diretamente quais integrantes do governo federal apoiariam a venda do Banco Master ao BRB.

Vorcaro, sem hesitar, cita três nomes de peso da base aliada, indicando que a operação já era discutida nos bastidores do poder.

A PF teve acesso a esse conteúdo por meio de medidas autorizadas judicialmente, e o diálogo foi incluído como evidência na investigação que apura possíveis irregularidades.

O ex-banqueiro, na ocasião, ainda era o controlador da instituição financeira e acompanhava de perto as negociações.

Nomes de confiança de Lula surgem na lista

Conforme o relatório, os apoiadores mencionados foram o então ministro da Casa Civil, Rui Costa; o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner; e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

Os três ocupavam cargos de máxima confiança na administração federal e integravam o núcleo político mais próximo do presidente Lula.

A manifestação de Vorcaro indica que a venda do Master, uma operação que dependia de critérios técnicos definidos pelo Banco Central, também era objeto de intensas articulações no alto escalão do governo.

A menção a Wagner, especialmente, chamou a atenção dos investigadores, uma vez que o senador atuava como líder governista e poderia influenciar decisões legislativas.

Wagner visto como aliado político, diz PF

De acordo com o trecho da investigação entregue ao ministro André Mendonça, a resposta de Vorcaro evidencia que ele enxergava Jaques Wagner como um aliado político em uma transação de natureza essencialmente regulatória.

A Polícia Federal frisa que a aprovação desse tipo de negócio deve se basear estritamente em aspectos técnicos, mas o ex-dono do Master sugeriu um alinhamento que transcenderia o mero acompanhamento legislativo.

Para os investigadores, o alinhamento do parlamentar alcançava o plano das articulações políticas institucionais, o que pode representar um desvio de finalidade.

Essa conclusão embasou parte dos pedidos dirigidos ao STF contra o senador.

O papel do Banco Central na transação

A venda do controle de uma instituição financeira como o Banco Master a outro banco é submetida a rigorosa avaliação do Banco Central.

O órgão regulador examina a saúde financeira das partes, a origem dos recursos e a adequação da operação às normas do sistema financeiro.

No caso em questão, a Polícia Federal chamou a atenção para o fato de que a negociação, embora essencialmente técnica, era tratada como objeto de articulação política de alto nível.

Isso levanta questionamentos sobre a possibilidade de interferência indevida no trabalho da autarquia.

Senador é alvo da Operação Compliance Zero

Jaques Wagner foi um dos alvos da 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho.

A ação, autorizada pelo STF, investiga supostas irregularidades relacionadas às atividades do Banco Master.

Embora os detalhes estejam sob sigilo, a inclusão do senador no rol de investigados demonstra o avanço das apurações.

O parlamentar teve que prestar esclarecimentos e teve seu sigilo quebrado, como parte das medidas cautelares.

A investigação ainda está em curso e pode se estender a outros envolvidos.

Jaques Wagner contesta as acusações

O senador nega qualquer irregularidade e afirma não ter interferido na venda do banco.

Por meio de sua assessoria, declarou que sua atuação sempre foi pautada pela legalidade.

Sobre outro ponto da apuração — a aquisição de um apartamento —, Wagner sustenta que procurou o empresário Augusto Lima com a intenção de comprar o imóvel temporariamente.

Segundo sua versão, havia o compromisso de recomprar o bem posteriormente para sua filha, em uma transação legal e desvinculada do caso Master.

A fonte dos dados, no entanto, não detalhou se essa negociação imobiliária possui relação direta com as suspeitas em torno do banco.

As investigações buscam esclarecer essa possível conexão.

Investigação segue e caso ganha publicidade

O teor do relatório da Polícia Federal foi divulgado inicialmente pelo portal de notícias Paulo Figueiredo.

A publicação trouxe à tona os bastidores da investigação e gerou reações no meio político.

Até o momento, o Banco Central não se manifestou publicamente sobre o andamento da análise da venda do Master ao BRB.

O STF mantém o processo sob sigilo, mas novos desdobramentos são esperados nas próximas semanas.

A sociedade, por sua vez, aguarda esclarecimentos sobre a possível influência política em uma decisão que deveria ser estritamente técnica.

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