O ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), trocou mensagens e participou de eventos com o empresário Vorcaro antes de se declarar impedido de julgar processos relacionados ao Banco Master na Corte. A informação consta em apuração da Folha de S.Paulo publicada nesta sexta-feira (18). O contato entre o magistrado e o empresário ocorreu ao longo de 2024, conforme registros de mensagens e relatos de encontros.
A Gazeta do Povo procurou o ministro Benedito Gonçalves por meio do STJ e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), onde ocupa o cargo de corregedor, para se pronunciar sobre a apuração. Até o momento, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Mensagens revelam proximidade entre ministro e empresário
A apuração aponta que Benedito Gonçalves e Vorcaro trocaram uma série de mensagens em 2024. Em uma delas, datada de 17 de maio, o magistrado teria se referido a um encontro em uma festa promovida pelo Banco Master. “Boa noite feliz em rever o amigo. Festa bonita! Parabéns! Ab Benedito”, escreveu o ministro, segundo o levantamento.
Vorcaro respondeu chamando-o de “caro amigo” e agradeceu pelo carinho. Em seguida, sugeriu um novo encontro: “Vamos marcar o charuto em Brasília”. A troca de mensagens indica uma relação cordial e frequente entre os dois, com menções a encontros sociais e convites para reuniões futuras.
Convites e figurinhas reforçam laços
Os contatos continuaram em 2 de julho do mesmo ano. Na ocasião, Vorcaro chamou o ministro de “grande amigo” e propôs um encontro na capital federal após o retorno de Benedito do Rio de Janeiro. “Grande amigo tudo bem? Vamos marcar encontro em Brasília no seu retorno do Rio!”, escreveu o empresário.
Benedito respondeu que chegaria no dia 29 e faria contato em seguida, acrescentando que está “sempre à disposição”. No mesmo dia, o ministro enviou ainda uma figurinha com um aperto de mãos e a frase “tamo junto sempre”. O gesto, comum em aplicativos de mensagens, reforça a informalidade da relação.
Evento em Londres bancado por Vorcaro
Além das mensagens, Benedito também teria participado, em abril de 2024, de um evento em Londres bancado por Vorcaro. O encontro incluiu uma degustação de uísque Macallan destinada a autoridades, promovida pelo ex-banqueiro. A presença do ministro nesse tipo de evento levanta questionamentos sobre a proximidade com o setor financeiro.
A participação em eventos patrocinados por partes com interesses em processos judiciais pode ser vista como um fator de risco para a imparcialidade. No entanto, a fonte não detalhou se o evento teve relação direta com os casos do Banco Master no STJ.
Impedimento declarado no primeiro semestre
A suspeita sobre a relação de Gonçalves com o empresário se tornou ainda maior após o magistrado se declarar impedido, no primeiro semestre deste ano, de julgar processos relacionados ao Banco Master na Corte. O impedimento é um instrumento legal que afasta o juiz de casos em que haja dúvida sobre sua imparcialidade.
A declaração de impedimento ocorreu após o período de trocas de mensagens e encontros. Não há informações públicas sobre os motivos específicos que levaram o ministro a se afastar dos processos. A fonte não detalhou se o impedimento foi motivado pelas interações com Vorcaro.
Papel de corregedor no CNJ
Benedito Gonçalves ocupa o cargo de corregedor no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e permanecerá na função até 2028. Como corregedor, ele é responsável por receber reclamações e denúncias sobre possíveis irregularidades cometidas por magistrados. O órgão também realiza sindicâncias, inspeções e correições em casos de suspeitas de infrações graves.
A atuação do corregedor é fundamental para a manutenção da ética na magistratura. O fato de o próprio corregedor estar sob escrutínio público gera atenção sobre a necessidade de transparência e rigor na apuração de condutas de juízes.
Contexto e repercussão
A divulgação da apuração pela Folha de S.Paulo reacende o debate sobre a relação entre magistrados e agentes econômicos. A troca de mensagens e a participação em eventos sociais podem ser interpretadas como parte da vida privada, mas ganham relevância quando envolvem partes com interesses em tribunais.
O Banco Master tem processos em tramitação no STJ, e a atuação de ministros nesses casos é sensível. A imparcialidade do Judiciário é um princípio constitucional, e qualquer sinal de proximidade excessiva pode comprometer a confiança pública. A fonte não detalhou se há investigação formal sobre o caso.
Próximos passos e expectativas
A Gazeta do Povo segue aguardando retorno do ministro Benedito Gonçalves e do STJ sobre a apuração. O CNJ, como órgão de controle, também pode ser acionado para esclarecer se há procedimentos em andamento. Até o momento, não há informações oficiais sobre medidas disciplinares.
A sociedade acompanha o desdobramento do caso, que envolve um dos mais altos cargos do Judiciário brasileiro. A transparência e a prestação de contas são essenciais para preservar a credibilidade das instituições.
