O Brasil é hoje o maior exportador mundial de commodities agrícolas, tendo atingido US$ 169,2 bilhões em vendas ao exterior em 2025. O país lidera as exportações globais de soja, milho, café, açúcar, suco de laranja, carne bovina e carne de frango. No entanto, no caixa do supermercado, cerca de R$ 50 mal fecham uma cesta básica. O paradoxo entre a abundância da produção e o custo elevado dos alimentos para o consumidor brasileiro se aprofunda a cada ano.

Produção recorde, preços nas alturas

A produção nacional é suficiente para atender as necessidades calóricas de aproximadamente 900 milhões de pessoas, mais de quatro vezes a população do país. A produção de grãos na safra 2025/26 está estimada em 353,4 milhões de toneladas, recorde histórico. O número alimenta expectativas de queda nos preços internos, mas os analistas de mercado estão céticos. De junho de 2006 a dezembro de 2025, o custo da alimentação subiu 302,6% no Brasil, multiplicando por quatro, enquanto a inflação geral acumulou 186,6%. Os alimentos ficaram 62% mais caros que a inflação oficial no período.

Inflação estrutural pressiona o bolso

Pesquisadores classificam a inflação alimentar como estrutural, composta por pressões permanentes que não se resolvem sozinhas e exigem mudanças no modo como a economia está organizada. A inflação de alimentos passou de -0,5% em 2023 para 8,2% em 2024. Esse salto reflete, em parte, a prioridade dos produtores em vender para outros países e receber em dólares, em vez de abastecer o mercado interno. Em 2025, as exportações de alimentos chegaram a 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações ficaram em 17,7 milhões.

Exportações avançam, culturas básicas recuam

A área plantada com commodities de exportação cresceu mais do que o território inteiro da Alemanha nas últimas duas décadas. No mesmo período, a área dedicada a arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 para 6,41 milhões de hectares. Esse deslocamento da produção para culturas voltadas ao mercado externo reduz a oferta interna de alimentos básicos, contribuindo para a alta de preços. Enquanto o Brasil colhe safras recordes de soja e milho, o feijão e o arroz ficam mais caros na mesa do brasileiro.

O cenário revela um descompasso entre a pujança do agronegócio exportador e a realidade do consumidor local. A expectativa de que a supersafra de grãos derrube os preços internos esbarra na lógica do mercado global, onde o dólar e a demanda externa determinam para onde vai a produção. Enquanto isso, o brasileiro continua pagando mais caro pela comida que o próprio país produz de sobra.

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