O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta quinta-feira (27), durante sabatina promovida pela TV Globo, que não está preocupado com a dívida pública brasileira. O petista ainda repetiu uma alegação já contestada por dados oficiais: a de que herdou do governo Jair Bolsonaro (PL) um déficit de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB). A declaração ocorreu em um contexto de questionamentos sobre eventuais medidas de ajuste fiscal em um possível quarto mandato.

Lula foi indagado diretamente se adotaria medidas de contenção de gastos caso fosse reeleito. Em vez de responder sobre o presente, ele se esquivou e afirmou que quer governar o país por mais quatro anos para “fazer esse país crescer”, alegando que “já fez o básico que tinha que fazer”. A resposta, no entanto, não abordou os números atuais das contas públicas, que mostram um cenário distinto do descrito pelo presidente.

Alegação de déficit contrasta com superávit

A fala de Lula sobre o déficit de 2,8% do PIB herdado de Bolsonaro não encontra respaldo nos registros oficiais do Tesouro Nacional. Em 2022, último ano do governo anterior, o setor público consolidado registrou superávit primário de 0,5% do PIB, conforme dados divulgados pelo Banco Central. O resultado positivo foi impulsionado por receitas extraordinárias e pela recuperação econômica pós-pandemia.

Ao repetir a informação incorreta, o presidente reacendeu o debate sobre a precisão de suas declarações em temas fiscais. Especialistas ouvidos pela imprensa têm apontado que, embora a dívida bruta tenha crescido nos últimos anos, o déficit primário não atingiu o patamar citado por Lula no período de transição. A fonte não detalhou se o presidente se referia a outro indicador, como o déficit nominal, que inclui juros da dívida e pode apresentar números maiores.

A insistência na tese do déficit herdado pode ter implicações políticas, pois reforça uma narrativa de que o atual governo teria recebido as contas em situação pior do que a realidade. No entanto, os dados fiscais de 2022 contradizem essa versão, e a repetição da alegação levanta questionamentos sobre a comunicação oficial do Planalto.

Lula cita superávits do passado

Durante a sabatina, Lula fez questão de fazer referência aos seus primeiros dois mandatos, apesar de a pergunta ser sobre o momento atual. Ele afirmou que nunca teve problema fiscal e que seus dois primeiros mandatos deixaram superávits primários anualmente. A declaração busca associar sua gestão anterior a um histórico de responsabilidade fiscal, mas não responde à questão sobre o presente.

O petista também mencionou sua equipe econômica atual, citando os nomes de Fernando Haddad, Guido Mantega e Dario Durigan como exemplos de “muita responsabilidade fiscal”. A menção a Mantega, que foi ministro da Fazenda nos governos Dilma Rousseff, chamou atenção, pois o período foi marcado por críticas à condução da política fiscal e pelo início da deterioração das contas públicas.

Ao trazer esses nomes, Lula tenta construir uma imagem de continuidade e compromisso com o equilíbrio fiscal, mas não apresentou medidas concretas para reduzir a dívida ou controlar despesas. A ausência de propostas específicas foi notada por analistas, que esperavam um posicionamento mais claro sobre o arcabouço fiscal e as metas de resultado primário.

Dívida pública e falta de crescimento

Lula também comentou sobre a relação dívida/PIB, que atualmente está em torno de 80%. Ele atribuiu o patamar elevado à falta de crescimento econômico nos últimos dez anos, e não a desequilíbrios fiscais. “Você acha que o Brasil está com problema de dívida pública porque chegamos a 80% [relação dívida/PIB], sabe por quê? Porque estamos há mais de dez anos sem crescer”, afirmou.

Essa visão, porém, é contestada por economistas, que apontam que o baixo crescimento é também consequência de desajustes fiscais, como gastos públicos elevados e juros altos. A dívida bruta brasileira é uma das maiores entre os países emergentes, e sua trajetória preocupa investidores e agências de classificação de risco.

Ao minimizar a preocupação com a dívida, Lula sinaliza que não pretende adotar um ajuste fiscal agressivo, o que pode gerar incertezas no mercado. A declaração ocorre em um momento em que o governo discute a revisão de metas fiscais e enfrenta pressão para cortar gastos e aumentar a arrecadação.

Repercussão e contexto político

A fala de Lula repercutiu rapidamente nas redes sociais e entre parlamentares da oposição, que acusaram o presidente de distorcer os números. Líderes do PL e de partidos de centro-direita lembraram que o governo Bolsonaro encerrou 2022 com superávit primário, e que o déficit só voltou a aparecer em 2023, já sob a gestão petista.

Aliados do governo, por outro lado, defenderam a declaração, argumentando que o presidente se referia ao déficit nominal ou a projeções feitas na época da transição. A fonte não detalhou qual foi a base usada por Lula para citar o número de 2,8%, o que dificulta a verificação imediata da afirmação.

O episódio reforça a importância do fact-checking em declarações de autoridades, especialmente em temas econômicos que afetam a confiança de investidores e a credibilidade das instituições. A repetição de informações incorretas pode minar a confiança pública e gerar ruídos desnecessários no debate político.

Em resumo, a alegação de Lula sobre o déficit herdado de Bolsonaro não se sustenta diante dos dados oficiais, e sua postura em relação à dívida pública levanta dúvidas sobre a disposição do governo em promover ajustes fiscais. A sabatina evidenciou a distância entre o discurso presidencial e a realidade das contas públicas, deixando em aberto quais serão as prioridades econômicas em um eventual novo mandato.

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