O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a afirmar, durante a sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, que herdou do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) um “déficit fiscal de 2,8%” do PIB (Produto Interno Bruto). A declaração, contudo, não corresponde aos dados oficiais das contas públicas. Segundo o Tesouro Nacional, o governo federal registrou superávit de R$ 54,9 bilhões em 2022, último ano da gestão Bolsonaro, e não um déficit.

O contraste entre a fala presidencial e os números oficiais reacende o debate sobre a responsabilidade fiscal e a trajetória das contas públicas. A seguir, os principais pontos da entrevista e os dados que contextualizam a controvérsia.

Declaração no Jornal Nacional

Durante a sabatina, Lula foi questionado sobre sua preocupação com a trajetória da relação dívida/PIB do país, que atingiu 81,9% em junho deste ano. Em sua resposta, o presidente afirmou: “Eu herdei esse governo com déficit fiscal de 2,8% [do PIB]”. A frase ecoa declarações anteriores do petista, que frequentemente atribui a herança fiscal negativa ao antecessor.

Na mesma ocasião, Lula reforçou seu compromisso com o equilíbrio das contas: “Se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal sou eu”, externou o presidente. A afirmação, porém, contrasta com os resultados fiscais registrados desde o início de seu terceiro mandato.

O Jornal Nacional é uma das principais vitrines eleitorais e de comunicação do país, e a sabatina ocorre em um momento de atenção redobrada sobre a política econômica do governo. A fala de Lula ganhou repercussão imediata nas redes sociais e entre analistas.

Dados oficiais mostram superávit em 2022

Os números do Tesouro Nacional são claros: em 2022, o governo federal obteve superávit primário de R$ 54,9 bilhões. Esse resultado positivo ocorreu no último ano da administração Bolsonaro e foi influenciado por receitas extraordinárias, como dividendos de estatais e arrecadação recorde de impostos. O superávit primário indica que as receitas superaram as despesas antes do pagamento de juros da dívida.

Portanto, a afirmação de que Lula herdou um déficit de 2,8% do PIB não encontra respaldo nos dados oficiais daquele período. A divergência entre a fala presidencial e os registros contábeis é o cerne da controvérsia. Especialistas apontam que, mesmo considerando diferentes metodologias de cálculo, o resultado de 2022 foi superavitário.

O superávit de 2022 representou uma melhora em relação a anos anteriores, mas não reverteu a trajetória de alta da dívida pública, que seguiu pressionada pelos juros elevados e pelo baixo crescimento econômico.

Contas no vermelho sob Lula

Em contraste com o superávit herdado, o atual governo registrou déficit primário de R$ 81,3 bilhões no acumulado de janeiro a julho deste ano, segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU). O resultado negativo reflete aumento de despesas e queda de receitas em relação ao ano anterior.

Além disso, sob o atual mandato, o resultado das contas públicas também ficou no vermelho em 2023 e 2024, com déficits de 2,1% e 0,4% do PIB, respectivamente. Esses números indicam que, desde a posse de Lula, o governo federal não conseguiu retomar o equilíbrio fiscal observado no último ano de Bolsonaro.

A trajetória deficitária tem sido motivo de críticas de economistas e de parte do mercado financeiro, que cobram medidas de contenção de gastos. O governo, por sua vez, argumenta que os déficits são necessários para financiar políticas sociais e retomar o crescimento.

Questionado sobre ajuste fiscal, Lula esquiva

Quando questionado sobre eventuais medidas de ajuste fiscal em um quarto mandato, Lula se esquivou e disse apenas que pretende governar o país por mais quatro anos “para fazer esse país crescer”. A resposta não detalhou planos concretos para reduzir o déficit ou estabilizar a dívida pública.

A ausência de propostas específicas para o equilíbrio fiscal gerou reações entre analistas, que esperavam maior clareza sobre a política econômica futura. O presidente, no entanto, preferiu focar em sua trajetória passada e em promessas de crescimento.

Na mesma entrevista, o presidente listou seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, quando o país registrou superávits primários anuais consecutivos. “Dos países do G20 fui o único que fiz superávit primário durante oito anos”, afirmou Lula, referindo-se ao período em que comandou o país com uma política fiscal mais austera.

Contexto e implicações

A controvérsia sobre a herança fiscal ocorre em um cenário de juros elevados e incertezas sobre a sustentabilidade da dívida pública. A relação dívida/PIB, mencionada na pergunta ao presidente, é um indicador-chave para a confiança dos investidores e para a capacidade do governo de financiar suas políticas.

Enquanto Lula atribui o déficit ao antecessor, os dados oficiais mostram que o último ano de Bolsonaro foi superavitário e que os déficits se concentram no atual mandato. Essa divergência factual alimenta o debate político e econômico, especialmente em um contexto pré-eleitoral.

O presidente não apresentou, na sabatina, dados que sustentem a afirmação de ter herdado déficit de 2,8% do PIB. A fonte não detalhou a origem desse número, que pode estar relacionado a projeções ou a um recorte temporal diferente do ano calendário de 2022.

Em suma, a fala de Lula no Jornal Nacional reacendeu a discussão sobre a responsabilidade fiscal e a precisão das declarações públicas. Enquanto o governo atual enfrenta déficits consecutivos, o último ano da gestão anterior registrou superávit, conforme os dados do Tesouro Nacional e do TCU.

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