O endividamento das famílias brasileiras atingiu 82% em julho, o maior nível da série histórica, segundo dados divulgados nesta terça-feira. Todavia, apesar do recorde, a inadimplência recuou de 29,9% para 29,8% no mês, e o tempo médio de atraso caiu para 64,6 dias, o menor desde dezembro de 2025. Além disso, o cartão de crédito segue como principal fonte de endividamento, respondendo por 85,3% dos casos.

Recorde no endividamento das famílias

Assim sendo, o percentual de 82% representa um aumento em relação ao mês anterior e reflete o aperto financeiro dos lares brasileiros. Ademais, as famílias comprometem, em média, 29,5% da renda com dívidas, e a parcela com mais da metade dos rendimentos comprometidos subiu para 19%, maior nível desde março. Dessa forma, esses números indicam que, embora o acesso ao crédito continue amplo, a capacidade de pagamento está cada vez mais tensionada.

Por outro lado, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, avaliou os dados com cautela. “Vemos sinais positivos de resiliência (…) porém, os números mostram que é preciso avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador”, disse. Portanto, a declaração reforça a necessidade de políticas públicas que enderecem o custo do crédito e a renda disponível das famílias.

Sobretudo, na comparação com o cenário pré-pandemia, o endividamento atual está bem acima dos níveis observados em 2019, o que denota uma mudança estrutural no orçamento doméstico. Contudo, a queda na inadimplência sugere que, até o momento, as famílias têm conseguido honrar seus compromissos, ainda que com sacrifícios.

Dívida pública também em alta

A disparada das famílias acompanha a trajetória da dívida pública bruta do país, que somou R$ 10,8 trilhões em junho, equivalente a 81,9% do PIB, segundo o Banco Central. Esse é o maior patamar desde abril de 2021. Desde o início do atual mandato de Lula, em janeiro de 2023, o indicador avançou 10,2 pontos percentuais, ante 71,7% do PIB no fim do governo Bolsonaro.

Esse movimento paralelo evidencia uma correlação entre o endividamento público e o privado, embora as causas e consequências sejam distintas. No setor público, o crescimento da dívida está associado a despesas crescentes e à política fiscal. No entanto, para as famílias, os juros elevados e a inflação de itens essenciais têm papel central.

Além disso, a Instituição Fiscal Independente projeta que a dívida bruta feche 2026 em 82,5% do PIB, com trajetória de alta que pode levar o índice a 100% em 2032. Consequentemente, essa perspectiva acende um alerta sobre a sustentabilidade fiscal no médio prazo, o que pode impactar a confiança dos agentes econômicos e, por consequência, o crédito disponível para as famílias.

Inadimplência recua leve

Embora o endividamento tenha batido recorde, a inadimplência apresentou uma leve melhora. Ou seja, o recuo de 0,1 ponto percentual, de 29,9% para 29,8%, pode indicar que as famílias estão priorizando o pagamento de dívidas, mesmo em um cenário de comprometimento elevado. Sobretudo, o tempo médio de atraso de 64,6 dias, o menor desde dezembro de 2025, reforça essa leitura.

O cartão de crédito permanece como o principal instrumento de dívida, presente em 85,3% dos lares endividados. Isto é, essa concentração é preocupante, pois o rotativo do cartão é uma das modalidades com juros mais altos do mercado. A pesquisa, no entanto, não detalha o valor médio devido por família ou a distribuição por faixa de renda.

Ademais, especialistas ouvidos pela reportagem ponderam que a queda na inadimplência pode ser reflexo de renegociações e programas de refinanciamento. Todavia, o nível de comprometimento de renda próximo de 30% deixa pouco espaço para poupança e consumo futuro.

Comprometimento da renda e alerta social

O percentual de famílias com mais da metade da renda comprometida, agora em 19%, é o maior desde março. Esse dado é particularmente sensível, pois indica que quase uma em cada cinco famílias utiliza a maior parte de seus rendimentos para pagar dívidas, restando pouco para despesas básicas como alimentação e moradia.

José Roberto Tadros destacou a necessidade de avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador, sem dar detalhes sobre propostas específicas. A declaração sugere que o setor do comércio, representado pela CNC, acompanha com preocupação o impacto do endividamento no consumo das famílias.

Portanto, em um cenário de juros ainda elevados, a tendência é que o endividamento continue pressionado. Contudo, a fonte não detalhou projeções para os próximos meses, mas a trajetória recente indica que o recorde pode ser superado.

Perspectiva fiscal e impacto econômico

A relação entre dívida pública e endividamento das famílias não é automática, mas ambos os indicadores apontam para um mesmo fenômeno: o aperto financeiro generalizado. Assim sendo, com a dívida pública projetada para crescer nos próximos anos, o espaço para políticas de estímulo ao crédito barato fica limitado.

O Banco Central, que divulgou os dados da dívida pública, não comentou as projeções da Instituição Fiscal Independente. Todavia, o governo federal não se manifestou sobre o recorde do endividamento das famílias. A ausência de pronunciamento oficial, contudo, não diminui a importância do tema para a agenda econômica.

Portanto, diante desse quadro, a recomendação de educadores financeiros é que as famílias busquem renegociar dívidas com juros elevados, como o rotativo do cartão, e evitem novos parcelamentos de longo prazo. No entanto, sem mudanças na política de juros e no cenário fiscal, o alívio para o orçamento doméstico pode demorar a chegar.

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