Mensagens obtidas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam um contrato de R$ 1,2 milhão ligado ao jornalista Reinaldo Azevedo, com adiantamentos de dinheiro e a atuação do advogado Walfrido Warde para colocar sua influência a serviço dos interesses do dono do Banco Master. Os registros, que vão de 2023 a 2025, mostram cobranças de notas fiscais, pagamentos parciais e a tentativa de viabilizar um patrocínio para o programa Reconversa, apresentado por Azevedo e Warde.

Os diálogos foram extraídos de conversas entre Warde e Vorcaro, nas quais o nome de Reinaldo Azevedo aparece dezenas de vezes. A documentação indica que o jornalista, então colunista do UOL e comentarista da BandNews, era visto como uma voz valiosa para os interesses do banqueiro.

Contrato de R$ 1,2 milhão é revelado

Em 21 de janeiro de 2025, Warde enviou a Vorcaro um print de uma conversa com Fabiano Zettel, encarregado de tratar de pagamentos do banqueiro. A imagem mostrava uma cobrança relacionada ao “banco super” e trazia a identificação: “Esse é aquele contrato do Reinaldo Azevedo”.

O texto detalhava que seriam doze parcelas de R$ 100 mil a partir de março de 2024, das quais sete haviam sido pagas até aquele momento. A oitava nota, emitida em novembro, ainda não tinha sido quitada. Doze parcelas de R$ 100 mil somam R$ 1,2 milhão; as sete pagas equivalem a R$ 700 mil.

Após encaminhar a imagem, Warde pediu: “Me ajuda com isso por favor”. A fonte não detalhou se houve resposta imediata de Vorcaro.

Cobranças e áudios reforçam pendência

Oito dias depois, em 15 de dezembro, Warde voltou a cobrar a providência. Em um áudio de dezesseis segundos, enviado às 16h40min58s, ele tratou expressamente do negócio de Reinaldo. A transcrição automática registra: “outra coisa querido o fabiano zétel não ligou lá pro cara da bande no caso do reinaldo como é que faz voce ainda tá tá de pé aquele negócio lá do reinaldo prque eu falei pra ele ele etá aguardanoos cara estão aguardando da ligação do fabiano que não ligou pra ele”.

Às 16h43, Vorcaro confirmou: “Ta de pe”. O advogado falava com Reinaldo, tratava com o banco, procurava o operador e tentava fazer a ligação comercial acontecer.

No mesmo dia, às 13h09, Warde enviou outro áudio após mandar um comprovante. A transcrição registra: “eu paguei o patrocínio lá com meu dinheiro”. E, sobre o ressarcimento: “depois eu emito uma nota pra você”.

Nome de Reinaldo aparece 58 vezes

Em uma única parte do chat de Warde, correspondente a outubro de 2023 a setembro de 2024, o nome Reinaldo aparece 58 vezes, distribuído por 36 mensagens, incluindo títulos e descrições de links. Sua presença na conversa do advogado com o banqueiro era recorrente.

Durante os acertos documentados, Reinaldo era colunista do UOL, um dos maiores portais de notícias do país, e comentarista da BandNews. A plataforma que tornava sua voz valiosa para o público também a tornava interessante para Vorcaro.

Outrora conhecido por suas críticas devastadoras ao PT, autor de “O país dos petralhas” e de sua continuação, Reinaldo Azevedo atravessou o espectro político até se tornar uma das vozes mais hostis ao bolsonarismo e mais enfáticas na defesa de autoridades envolvidas nas controvérsias do caso Master.

Warde: sócio e intermediador

Para entender essa fase de Reinaldo e o papel de seus interesses financeiros, é necessário conhecer um personagem: Walfrido Warde, seu sócio no programa de entrevistas Reconversa. Advogado do Banco Master e de Vorcaro, Warde presidia o Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, o IREE, e circulava entre empresários, ministros e dirigentes do governo Lula.

A frase de Warde em uma das cobranças estabelece o ponto de vista da negociação. Ele justificava o gasto pela utilidade do programa para Vorcaro. O público podia acompanhar uma conversa sobre economia, Justiça ou democracia. Na apresentação ao financiador, o argumento comercial era outro: aquilo lhe servia.

O próprio economista Luiz Gonzaga Belluzzo confirmou à Veja ter recebido dinheiro de Warde, atribuindo o pagamento à realização de debates no IREE. O instituto, o advogado e o banqueiro voltavam a aparecer no mesmo circuito de remuneração de vozes influentes.

Pendências reaparecem em fevereiro

Em fevereiro de 2025, a cobrança reapareceu de forma expressa como patrocínio. No dia 12, Fabiano Zettel levou ao banqueiro uma lista de pendências que incluía parcelas relacionadas a Walfrido. A fonte não detalhou o valor total dessas parcelas nem se houve pagamento posterior.

Os registros obtidos não indicam se Reinaldo Azevedo tinha conhecimento direto das negociações ou se apenas Warde tratava dos valores em seu nome. A reportagem não encontrou manifestação do jornalista ou de seus representantes sobre o caso.

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