O Banco de Brasília (BRB) gastou cerca de R$ 500 milhões ao adquirir duas vezes a mesma carteira de crédito do Banco Master, em uma operação que desconsiderou recomendações técnicas e jurídicas. A transação, envolvendo dívidas da empresa RKO Alimentos, um frigorífico do Mato Grosso, foi realizada sem garantias adequadas e antes da produção de um parecer que solicitava medidas de precaução. Os ativos comprados são classificados como frios e ampliam um rombo ainda não totalmente dimensionado nas contas da instituição financeira pública.
Operação desaconselhada pela área técnica
O negócio entre o BRB e o Banco Master foi fortemente não recomendado pela área técnica do banco estatal. Além disso, a transação foi fechada antes da produção de um parecer jurídico que pedia precauções adicionais.
Esses fatores indicam que a aquisição ocorreu sem o aval completo dos setores responsáveis por avaliar riscos e conformidade. A decisão de prosseguir com a compra, portanto, ignorou alertas internos sobre possíveis problemas.
Ativos frios e impacto financeiro
Os ativos adquiridos do Master pelo BRB são considerados frios, o que significa que têm baixa liquidez ou valor questionável. Eles contribuem para um rombo ainda desconhecido nas contas do banco, agravando a situação financeira da instituição.
Essa combinação de fatores – desacordo técnico, falta de aval jurídico e qualidade dos ativos – levanta sérias questões sobre os critérios usados na operação.
Detalhes da dívida da RKO Alimentos
A carteira em questão pertence à RKO Alimentos, um frigorífico localizado no Mato Grosso. A empresa supostamente tomou um empréstimo de R$ 400 milhões do Master em dezembro de 2023, com carência até fevereiro de 2026.
O BRB comprou duas vezes essa dívida, pagando R$ 498 milhões no total pela operação. Esse valor supera o montante original do empréstimo, indicando um custo adicional para o banco público.
Origem e destinação do empréstimo
A cédula de crédito bancário (CCB) da RKO nasceu de um empréstimo na modalidade capital de giro. Os recursos eram destinados a:
- Construção ou aquisição de novos frigoríficos
- Desenvolvimento de lojas no segmento de carnes premium e congeladas
No entanto, a execução desses projetos dependia de liberações graduais, conforme o andamento das obras.
Falhas na garantia imobiliária
Um dos pontos críticos da operação é a ausência de garantias reais. O imóvel oferecido como segurança nunca pertenceu ao Banco Master e, por isso, nunca poderia ser tomado como garantia válida.
Atualmente, não há qualquer anotação de alienação fiduciária do imóvel na matrícula, o que confirma a inviabilidade desse colateral. Essa falha torna a dívida ainda mais arriscada, pois não há ativo físico que possa ser usado para recuperar o valor em caso de inadimplência.
Estrutura complexa de liberação de recursos
Master e RKO acordaram que 90% dos R$ 400 milhões emprestados ficariam aplicados em um Fundo de Investimento da Reag. Os recursos só seriam liberados à medida que o frigorífico desenvolvesse os projetos.
Inicialmente, esse fundo deveria ser o Bravo, mas a fonte não detalhou se essa configuração foi mantida. Essa estrutura complexa de liberação de valores adiciona camadas de risco à operação.
Compra em duas etapas
O BRB primeiro comprou uma parte da CCB em 17 de outubro de 2024 por R$ 174 milhões. No entanto, essa transação não consta na planilha com todas as compras de ativos do Master pelo BRB, o que sugere uma possível falta de transparência ou registro inadequado.
A aquisição da parte restante da dívida ocorreu posteriormente, totalizando os R$ 498 milhões. A repetição da compra da mesma carteira sem garantias reforça as preocupações sobre a gestão do risco na instituição.
Impacto no rombo do BRB
Os ativos frios adquiridos nessas operações contribuem para o rombo ainda desconhecido nas contas do BRB. A combinação de valores elevados, falta de garantias e desacordo interno cria um cenário de incerteza sobre o impacto financeiro total.
A situação exige uma análise mais aprofundada para dimensionar os prejuízos e identificar responsabilidades.
Contexto e implicações
A operação com o Banco Master ocorre em um momento de atenção redobrada sobre as contas do BRB. A compra de ativos considerados frios, sem o aval técnico e jurídico completo, pode afetar a solidez do banco.
Além disso, a falta de garantias reais e a estrutura complexa do empréstimo à RKO Alimentos aumentam a exposição a perdas. Esses fatores somados levantam dúvidas sobre os processos de governança e controle de riscos na instituição.
Lições e próximos passos
O caso ilustra como decisões de investimento sem a devida fundamentação podem gerar consequências significativas para instituições públicas. A transparência na divulgação das transações, como a ausência da primeira compra na planilha oficial, também é um ponto que merece esclarecimentos.
As próximas etapas devem envolver a apuração detalhada dos fatos e a avaliação do impacto real nas finanças do BRB.
