O endividamento das famílias de baixa renda, principal base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atingiu níveis preocupantes e pode comprometer o crescimento econômico a partir de 2027. Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que, entre beneficiários do Bolsa Família, o comprometimento da renda com dívidas superou 30% no fim de 2024, patamar considerado elevado para famílias de baixa renda.
O cenário se agrava com a expansão do crédito rotativo do cartão de crédito e a oferta de empréstimos sem garantia por aplicativos, que ampliam a vulnerabilidade financeira desse grupo. A proximidade das eleições, por sua vez, tende a restringir cortes de gastos públicos, elevando a dívida pública e limitando a capacidade de o governo estimular a economia no futuro.
Bolsa Família compromete renda com dívidas
O levantamento da FGV revela que mais de 30% da renda dos beneficiários do Bolsa Família estava comprometida com o pagamento de dívidas no final de 2024. Esse índice é considerado alto para famílias de baixa renda, que já destinam grande parte do orçamento a despesas essenciais como alimentação e moradia. O comprometimento excessivo reduz a capacidade de consumo e poupança, tornando essas famílias mais suscetíveis a choques econômicos, como inflação de alimentos ou perda de renda.
A fonte não detalhou a evolução histórica desse indicador, mas o patamar atual acende um alerta para a sustentabilidade financeira desse segmento. A situação é ainda mais delicada porque o Bolsa Família é um programa de transferência de renda voltado justamente para aliviar a pobreza, e o endividamento pode anular parte desse efeito.
Crédito rotativo cresce com juros altíssimos
Com base na mesma análise, o crédito rotativo do cartão de crédito cresceu 32,7% em 12 meses, com taxas de juros que podem ultrapassar 400% ao ano. Essa modalidade é usada principalmente por famílias de classe média e baixa renda, que recorrem ao rotativo quando não conseguem pagar o valor integral da fatura. Os juros elevados fazem a dívida crescer rapidamente, criando um ciclo difícil de quebrar.
Por exemplo, uma dívida de R$ 1.000 no rotativo pode se transformar em mais de R$ 5.000 em um ano, se os juros forem mantidos no teto. A expansão do rotativo indica que muitas famílias estão perdendo a capacidade de honrar seus compromissos no curto prazo. Esse cenário pressiona ainda mais o orçamento dos mais pobres, que já enfrentam dificuldades com o comprometimento da renda.
Crédito sem garantia amplia vulnerabilidade
Além do cartão, bancos têm oferecido “crédito sem garantia” por aplicativo a correntistas de baixa renda, incluindo aposentados que já comprometem parte do salário com empréstimo consignado, sem exigir ida à agência ou assinatura de contrato físico. Essa facilidade pode levar ao superendividamento, pois o cliente acumula várias dívidas sem uma avaliação presencial de sua capacidade de pagamento. Aposentados, que têm renda fixa e estável, são alvos frequentes desse tipo de oferta, mas o acúmulo de parcelas pode comprometer uma fatia significativa do benefício.
A fonte não detalhou o volume total dessas operações, mas a prática preocupa especialistas por ampliar o endividamento de um grupo já vulnerável. A ausência de contrato físico também dificulta a contestação de cobranças indevidas, segundo relatos de consumidores.
Dívida pública em trajetória de alta
O endividamento das famílias ocorre em um contexto de deterioração das contas públicas. A dívida pública bruta do país, que estava em 71,7% do PIB em dezembro de 2022, já havia avançado para 77,5% em julho de 2025, segundo o Banco Central. Esse aumento reflete déficits fiscais persistentes e juros elevados, que pressionam o custo da dívida.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) projetava, em outubro do ano passado, que o indicador chegaria a 82,4% do PIB até o fim de 2026, enquanto o mercado financeiro já apontava, na época, para uma mediana de 84%. A divergência entre as projeções indica incerteza sobre a trajetória fiscal, mas ambas apontam para uma piora significativa. Uma dívida pública elevada reduz a confiança de investidores e pode levar a juros ainda mais altos, afetando o crédito para todos, inclusive os mais pobres.
Eleições limitam cortes de gastos
Ainda conforme o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a proximidade das eleições tende a restringir ainda mais os cortes de gastos públicos. “As eleições praticamente limitam os cortes de gastos ao primeiro semestre”, emendou. Isso significa que, no segundo semestre do ano eleitoral, o governo terá pouca margem para ajustar as contas, pois medidas impopulares podem custar votos. A declaração sugere que a dívida pública continuará subindo, pelo menos até a definição do pleito.
Sem controle de gastos, o governo pode ser forçado a aumentar impostos ou reduzir investimentos no futuro, o que afetaria o crescimento econômico. A combinação de famílias endividadas e contas públicas pressionadas cria um cenário desafiador para a economia a partir de 2027.
Impacto na economia a partir de 2027
O alto endividamento das famílias de baixa renda pode travar a economia a partir de 2027, pois esse grupo representa uma parcela significativa do consumo no Brasil. Se a renda está comprometida com dívidas, sobra menos para gastar em bens e serviços, o que reduz a demanda agregada. Além disso, a inadimplência pode aumentar, levando os bancos a restringir o crédito, o que afeta ainda mais o consumo. A dívida pública elevada também limita a capacidade do governo de estimular a economia por meio de gastos ou transferências.
O resultado pode ser um crescimento econômico mais lento, com impactos sobre emprego e renda. A fonte não detalhou projeções de PIB para 2027, mas o cenário descrito indica riscos relevantes para a atividade econômica.
Desafios para a base eleitoral de Lula
O endividamento dos mais pobres é um desafio direto para a base eleitoral do presidente Lula, que historicamente depende do apoio das classes de baixa renda. Se essas famílias enfrentam dificuldades financeiras, a popularidade do governo pode ser afetada, especialmente se a economia desacelerar. O governo tem adotado medidas como o Desenrola Brasil para renegociar dívidas, mas a eficácia dessas ações é limitada diante do alto custo do crédito.
A fonte não detalhou novas políticas para o endividamento, mas a pressão sobre o orçamento familiar tende a aumentar a demanda por soluções. A capacidade do governo de responder a essa demanda é restringida pela situação fiscal, criando um dilema político e econômico. O desfecho desse cenário dependerá de medidas de controle de gastos e de estímulo ao crédito responsável, que ainda não foram anunciadas.
Fonte
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