Sobretudo, a Copa do Mundo é, para Argentina e Inglaterra, muito mais do que uma disputa esportiva. Além disso, a rivalidade entre as seleções carrega um peso histórico que o escritor Jorge Luis Borges definiu como “uma briga inútil de dois carecas brigando por um pente”. Ou seja, essa frase ajuda a entender por que o futebol entre os dois países é visto como uma extensão da guerra. Dessa forma, parafraseando Clausewitz, as Copas do Mundo têm um pouco de “continuação da guerra por outros meios”. A história, portanto, começa bem antes e termina bem depois.

Futebol e geopolítica: símbolos em jogo

A geopolítica pode ser bélica ou comercial, mas no terreno da fundamentação a arma é simbólica. Ademais, disputas de poder, seja entre nações ou clubes, muitas vezes se travam no campo das representações. Símbolos como:

  • Mickey Mouse
  • Ópio
  • Cruz vermelha
  • Proletariado

Dessa forma, são facilmente identificados pelo inimigo ou por uma audiência interessada. No futebol, por exemplo, a camisa, o hino e a bandeira funcionam como esses símbolos, mobilizando torcidas inteiras. Assim sendo, é nesse contexto que Argentina e Inglaterra transformam cada partida em um capítulo de uma longa narrativa. Por isso, o futebol entre os dois países costuma ser tratado como um duelo de identidades.

Malvinas: o alvo inglês na história

No caso das Malvinas/Falklands, havia décadas que a Inglaterra era o alvo da Argentina. Contudo, a disputa territorial não era nova, mas assumiu contornos dramáticos quando um ditador comprou uma briga. Consequentemente, essa atitude fez boa parte da esquerda abandonar o anticolonialismo, criando uma fratura política. Sobretudo, o episódio, embora muito anterior à Copa, reforçou no imaginário argentino a ideia de que a Inglaterra era a adversária a ser vencida. Além disso, a Inglaterra, no imaginário local, já era vista como adversária muito antes desse episódio.

No futebol, a rivalidade já existia antes da guerra. Por exemplo, quando Maradona fez o “gol do século”, esta rivalidade já tinha 20 anos. Ou seja, isso indica que o conflito esportivo não começa nem termina nas Malvinas. Ademais, ele é anterior ao episódio e permanece depois, alimentado pela memória e pelo símbolo. Assim sendo, a memória desse passado alimenta cada novo encontro no gramado.

Por que o rival não era o Brasil?

O eterno rival do imaginário argentino não era exatamente o Brasil. Apesar da proximidade, o país enxergava o vizinho como inferior, miscigenado e como um irmão mais velho e mais pobre. Dessa forma, essa percepção colocava o Brasil em um degrau abaixo, não como um adversário à altura. Por outro lado, o alvo era a Inglaterra, considerada o “pai esportivo” da Argentina. Por isso, a Argentina olhava para longe e para cima, mirando a ex-potência colonial. Ademais, a relação com a Inglaterra era de fascínio e rivalidade ao mesmo tempo.

A ambiguidade de Jorge Luis Borges

Essa ambiguidade aparece na própria biografia de Jorge Luis Borges. Sobretudo, o escritor argentino era neto de britânicos e falava inglês em casa. Mesmo assim, foi ele quem caracterizou o conflito como “uma briga inútil de dois carecas brigando por um pente”. Isto é, a frase, que parece desqualificar a disputa, também reflete a intimidade com a cultura inglesa. No entanto, conhecê-la de perto não tornava o confronto menos marcante.

Torcidas: outras guerras simbólicas

A força simbólica do futebol também aparece em rivalidades locais. Por exemplo, em São Paulo, o time mais popular é o Corinthians, fundado em 1910. Além disso, Palmeiras, de 1914, e São Paulo, de 1930, ganharam sua torcida pela classe média. Assim sendo, essas diferenças de origem e de público mostram como o futebol traduz disputas sociais em paixão de arquibancada. No Rio de Janeiro, o Flamengo se enriqueceu por ser o mais popular, outro exemplo de como a identificação com uma torcida gera poder. Sobretudo, é um espelho das rivalidades que também ocorrem entre países.

Essas rivalidades locais, embora diferentes, ajudam a entender o fenômeno mais amplo das Copas. Por exemplo, se no Brasil os clubes disputam espaço pelo apoio popular, entre Argentina e Inglaterra a disputa é contra um inimigo histórico. Assim sendo, em ambos os casos, o jogo é uma arena simbólica. Ademais, a geopolítica, seja bélica ou comercial, ganha no futebol uma metáfora poderosa. E, como diz a frase atribuída a Clausewitz, a guerra continua por outros meios. Essa rivalidade Argentina Inglaterra, portanto, é um desses exemplos em que o esporte transcende a bola.

Em resumo, a Copa do Mundo se revela como um espaço onde memória e identidade se enfrentam. Para a Argentina, a Inglaterra segue sendo o espelho invertido: a origem esportiva e o adversário histórico. Ou seja, o futebol, nesse caso, não apaga a história; ele a reencena a cada disputa.

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